Os túneis “esquecidos” da cidade de São Paulo, The tunnels “forgotten” the city of São Paulo

 

 

São espaços escondidos, localizados até 15 metros sob a superfície, que serviram de passagem secreta a artistas famosos, ou rota de fuga em tempos de guerra. Hoje despertam a curiosidade. Os túneis que cruzam o subsolo de São Paulo – um deles pode até ser visitado – guardam histórias que ajudam a contar a trajetória de algumas instituições da cidade.

 

A Expedição Metrópole circulou por três desses caminhos subterrâneos ‘quase secretos’. E ouviu de casos pitorescos a histórias assustadoras.

 

Nos dois túneis do Teatro Municipal, por exemplo, hoje circulam apenas funcionários. Mas já houve dias em que serviram para ajudar divas e galãs a escapar de tietes. Com 32 metros de extensão, ligam a casa de espetáculos à Praça Ramos de Azevedo por baixo da Rua Coronel Xavier de Toledo. Foram criados para ventilar a sala de concertos com ar natural. Atualmente fechadas com grades, abrigam dutos de ar-condicionado.

 

Mas existe uma terceira passagem, o verdadeiro mistério do teatro: é o túnel que o ligava ao antigo Hotel Esplanada, atualmente sede da Votorantim. Nem mesmo os arquitetos que trabalharam no recente restauro do prédio sabem onde começa. A única entrada que resta fica no subsolo da Votorantim.

 

Por esse túnel, passaram despercebidos do público o tenor Beniamino Gigli, a soprano Bidú Sayão, a pianista Magdalena Tagliaferro, para citar alguns artistas que costumavam ficar semanas hospedados no antigo hotel. ‘Não estava previsto no projeto original do teatro. Sabemos que existiu porque há passagem do outro lado, mas não achamos resquícios da ligação com o teatro’, conta a arquiteta Rafaela Bernardes, responsável pelo restauro. ‘Provavelmente foi aterrado na reforma dos anos 1950.’

 

O que nunca deixou de habitar os túneis do Municipal foram as histórias de fantasmas, repassadas há décadas de funcionário a funcionário. Na ‘fase’ atual, a alma penada é de criança. ‘É uma menina que cruza os túneis e circula pelos subterrâneos. As faxineiras até se acostumaram com ela. E tem muito machão que já se assustou aqui embaixo’, conta o responsável pela manutenção do teatro, Joaquim Nunes, de 64 anos, no Municipal há 23. ‘Não acredito e nunca vi, mas prefiro não arriscar. Se alguém puder circular pelos túneis e o Salão dos Arcos (também no subterrâneo) comigo, tanto melhor.’

 

Fuga. No subsolo do quartel das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), na Luz, a rede de túneis já teve três quilômetros. Ligava o prédio – a exemplo do Municipal, também projetado por Ramos de Azevedo – aos outros quartéis e à antiga penitenciária da Avenida Tiradentes. A maior parte foi aterrada para obras do Metrô. Mas ainda restam 100 metros, transformados em memorial, com fotos e objetos antigos do batalhão. Restam também dois morcegos, que mesmo após a reforma continuam no local. ‘Antigamente, eram revoadas de morcegos, que atrapalhavam os soldados em treinamento nos túneis. Agora sobraram só esses dois, que servem pra assustar visitantes’, conta o sargento Cristiano Bauer, de 35 anos, responsável por visitas semanais ao local (informações no 11 3315-0188).

 

Os túneis – usados para locomoção de soldados na Revolução de 1924 – serviram também como cadeia de presos políticos na ditadura militar. No ano passado, as duas celas foram abertas à visitação e abrigam arquivo morto da Rota. Mesmo com melhorias, o ambiente é pesado, úmido, com teias de aranha e grades de metal enferrujadas. A rede de túneis foi construída com tijolos franceses e levou 20 anos para ficar pronta. O chão é de terra batida e a luz, bastante fraca. ‘É um clima que não poderia ser modificado, para ser fiel às funções originais’, diz o sargento Bauer. ‘Por mais obscuras que sejam.’

 

Indesejado. Os 90 metros mais indesejados da capital. É um título que caberia ao túnel que liga o Instituto Central do Hospital das Clínicas ao Instituto Médico Legal (IML), em Pinheiros, na zona oeste. Por lá, ninguém quer passar. ‘É usado para transportar até o Serviço de Verificação de Óbito ou ao IML pessoas que morrem no hospital’, explica a diretora de administração do hospital, Rita de Cássia Peres. O aspecto sóbrio – pintado de branco, pontilhado de manchas de umidade – e silencioso aumenta a atmosfera pesada. Por ali, há apenas barulho de passos e arrastar de macas. A não ser debaixo dos dois respiros que ligam o túnel à superfície, onde se ouvem vozes de pedestres. ‘É o maior susto para desavisados. Na hora, pensam que são ‘vozes do além”, conta a diretora, que trabalha no hospital desde 1980.

 

Mortes de famosos, às vezes, interrompem a quieta rotina do ‘túnel do IML’. ‘Quando Elis Regina morreu, tivemos de pôr seguranças nas portas do túnel. Muita gente queria acompanhar’, lembra Rita de Cássia. ‘Mas aqui não é lugar para cortejo.’

 

 

They are hidden spaces, located 15 meters under the surface, which served as a secret passage to famous artists, or escape route in times of war. Today curiosity. The tunnels that cross the basement of St. Paul – one of them can even be visited – keep stories that help tell the history of some institutions of the city.

The Expedition Metropolis circulated through underground paths of these three ‘almost secret’. And heard the case picturesque scary stories.

Two tunnels in the Municipal Theatre, for example, now circulate only employees. But there have been days when they served to help divas and thugs to escape from groupies. With 32 meters long, connecting the playhouse Ramos de Azevedo Square under the Rua Coronel Xavier de Toledo. They were created to ventilate the concert hall with natural air. Currently fenced off, house air-conditioning ducts.

But there is a third way, the real mystery of theater: it is the tunnel that connected the former Esplanade Hotel, now the headquarters of Votorantim. Even the architects who worked on the recent restoration of the building know where to start. The only entry that remains is in the basement of Votorantim.

Through the tunnel, went unnoticed by the public the tenor Beniamino Gigli, soprano Bidu Sayao, pianist Magdalena Tagliaferro, to name a few artists who used to spend weeks staying in the old hotel. ‘It was not planned in the original design of the theater. We know that because there is no passage from the other side, but did not find remnants of the connection to the theater ‘, tells the architect Rafael Bernardes, responsible for restoration. ‘It was probably grounded in the reform of the 1950s. ”

What never ceased to inhabit the tunnels of the Hall were the ghost stories passed on decades of employee to employee. In the ‘phase’ current, is the ghost of a child. ‘It’s a girl crossing the tunnels and circulates through the underground. The cleaners have become accustomed to it. And that is very macho ever scared down here ‘, says the responsibility for maintaining the theater, Joaquim Nunes, 64, in Hall 23 there. ‘I do not believe and I never saw, but I’d rather not risk it. If someone can move through the tunnels and arches of the hall (also underground) with me, the better. ”

Fugue. In the basement of the headquarters of Rounds Octensivas Tobias de Aguiar (Rota), in the Light, the network of tunnels already had three kilometers. He called the building – like the hall, also designed by Ramos de Azevedo – other barracks and the former prison of Avenida Tiradentes. Most work was grounded to the Metro. But there are still 100 meters, turned into a memorial with pictures and curios of the battalion. There remain also two bats, which continue even after retirement spot. ‘Previously, they were flocks of bats, which hindered the soldiers in training in the tunnels. Now only those two left over, which serve to scare visitors’ says the sergeant Cristiano Bauer, 35, responsible for weekly visits to the site (information on 11 3315-0188).

The tunnels – used for transportation of soldiers in the Revolution of 1924 – also served as a jail for political prisoners during the military dictatorship. Last year, the two cells were opened to the house and archive of Rt. Even with improvements, the atmosphere is heavy, humid, with cobwebs and rusty metal bars. The tunnel network was built with bricks and took French 20 years to complete. The floor is dirt and light, very weak. ‘It is a climate that could not be modified, to be faithful to the original functions, “says Sergeant Bauer. ‘For more obscure they are. ”

Unwanted. The 90 meters of unwanted capital. It is a title that would fit the tunnel that connects the Central Institute of the Hospital of the Medical Legal Institute (IML), in Pinheiros, in the west. There, nobody wants to go. ‘It is used to transport up to the Death Verification Service or the IML people who die in hospital, “explains the director of hospital administration, Rita Peres. The somber look – painted white, dotted with patches of moisture – and quiet heavy atmosphere increases. For there, just drag the sound of footsteps and stretchers. Except under the two vents that connect the tunnel to the surface, where they hear voices of pedestrians. ‘It’s the biggest surprise for unsuspecting. At the time, think they are ‘voices from beyond”says the director, who works at the hospital since 1980.

Deaths of famous sometimes interrupt the quiet routine of ‘tunnel IML’. ‘When Elis Regina died, we had to put security guards at the gates of the tunnel. Many people wanted to follow, “recalls Rita. ‘But there is no place to train. ”

O Salão dos Arcos, localizado no subsolo do Teatro Municipal. Em seus dois túneis, atualmente, circulam apenas funcionários. Mas já houve dias em que serviram para ajudar divas e galãs a escapar de tietes. Com 32 metros de extensão, ligam a casa de espetáculos à Praça Ramos de Azevedo por baixo da Rua Coronel Xavier de Toledo.

The Hall of Arcos, located in the basement of the Municipal Theatre. In his two tunnels currently circulate only employees. But there have been days when they served to help divas and thugs to escape from groupies. With 32 meters long, connecting the playhouse Ramos de Azevedo Square under the Rua Coronel Xavier de Toledo.

Detalhe de túnel do Teatro Municipal com ventilação para a praça Ramos de Azevedo, no centro da capital paulista. Além de dois túneis conhecidos, o subsolo do teatro reserva ainda uma terceira ligação que vai até a atual sede do Grupo Votorantim (antigo Hotel Esplanada). Arquitetos que participaram da restauração recente do Municipal não sabem onde o túnel começa.

Detail of the Municipal Theatre with tunnel ventilation for Ramos de Azevedo Square, in downtown São Paulo. In addition to two known tunnels, the underground theater still reserves a third link that goes to the current headquarters of the Votorantim Group (formerly the Hotel Esplanade). Architects who participated in the recent restoration of the Hall do not know where the tunnel begins.

Túnel do Batalhão Tobais Aguiar, mais conhecido como quartel da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar). O túnel ligava diversos quartéis na região da Avenida Tiradentes. Hoje está desativado

Tunnel Tobais Aguiar Battalion, better known as the headquarters of Rota (Rounds Octensivas Tobias de Aguiar). The tunnel linking various barracks in the area of Avenida Tiradentes. Today is disabled

Os túneis da Rota -usados para locomoção de soldados na Revolução de 1924- serviram também como cadeia de presos políticos na ditadura militar

The Rota-tunnels used for transportation of soldiers in the Revolution of 1924 – also served as a jail for political prisoners during the military dictatorship

Duas celas foram abertas à visitação, em 2010, e abrigam arquivo morto da Rota. Mesmo com melhorias, o ambiente é pesado, úmido, com teias de aranha e grades de metal enferrujadas. A rede de túneis foi construída com tijolos franceses e levou 20 anos para ficar pronta. O chão é de terra batida e a luz, bastante fraca. “É um clima que não poderia ser modificado, para ser fiel às funções originais”, diz o sargento Bauer.

Two cells were opened to visitors in 2010 and houses the archive of the route. Even with improvements, the atmosphere is heavy, humid, with cobwebs and rusty metal bars. The tunnel network was built with bricks and took French 20 years to complete. The floor is dirt and light, very weak. “It’s a climate that could not be modified, to be faithful to the original functions,” says Sergeant Bauer.

Túnel que liga o Instituto Central do Hospital das Clínicas ao Instituto Médico Legal (IML), em Pinheiros, na zona oeste. “É usado para transportar até o Serviço de Verificação de Óbito ou ao IML pessoas que morrem no hospital”, explica a diretora de administração do hospital, Rita de Cássia Peres

Tunnel connecting the Central Institute of the Hospital das Clinicas Medico-Legal Institute (IML), in Pinheiros, in the west. “It used to carry up the Death Verification Service or the IML people who die in hospital,” explains the director of hospital administration, Rita Peres

O aspecto sóbrio – pintado de branco, pontilhado de manchas de umidade – e silencioso aumenta a atmosfera pesada do túnel que liga o Hospital das Clínicas ao IML. Debaixo dos dois respiros que ligam o túnel à superfície, onde se ouvem vozes de pedestres. “É o maior susto para desavisados. Na hora, pensam que são ‘vozes do além”, conta a diretora do hospital, Rita de Cássia Peres.

The somber look – painted white, dotted with patches of moisture – and quiet heavy atmosphere increases the tunnel that connects the Hospital of the IML. Under the two vents that connect the tunnel to the surface, where they hear voices of pedestrians. “It’s the biggest surprise for unsuspecting. At the time, think they are ‘voices from beyond”says the director of the hospital, Rita Peres.

A segurança é reforçada nos acessos ao túnel que liga o Hospital das Clínicas ao IML em situações de mortes que impactam a opinião pública. “Quando Elis Regina morreu, tivemos de pôr seguranças nas portas do túnel. Muita gente queria acompanhar”, diz Rita de Cássia Peres

Security is enhanced access to the tunnel connecting the Hospital of the IML of deaths in situations that impact public opinion. “When Elis Regina died, we had to put security guards at the gates of the tunnel. Many people wanted to keep up,” says Rita Peres

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2 respostas para Os túneis “esquecidos” da cidade de São Paulo, The tunnels “forgotten” the city of São Paulo

  1. DIOGENES disse:

    IMPRESSIONANTE SOU PAULISTANO E NAO SABIA QUE EXISTIA ESSE GRANDE TUNEL QUE FAZ PARTE DA HISTORIA DA N0SSA CIDADE

  2. danilo rodrigues bernardes disse:

    e admirável essa existência de tuneis em são paulo…..
    na minha opinião deveríamos restaura todos os tuneis e abrir exposições para todos.
    o metro do estado de sao paulo (governo) acaba indiretamente com isso mesmo com a necessidade do transporte publico….
    temos que lutarmos juntos pela nossa historia

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